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Mobilidade & Pobreza - Pesquisa Qualitativa

Junho 2003

 

“Deixo de sair de casa com freqüência devido ao preço do transporte. Fico tanto tempo em casa que não sinto mais falta...”

 

Introdução

O objetivo geral deste projeto é conhecer e caracterizar os atuais padrões de mobilidade e as condições de acesso aos serviços de transporte coletivo pelas populações de baixa renda em aglomerações urbanas. Estas informações contribuirão para o estabelecimento de diretrizes e políticas, referentes ao setor de transportes urbano e rodoviário de passageiros no tocante a população de baixa renda.

Em sua primeira etapa foi realizada uma pesquisa qualitativa, através da realização de grupos de discussão “focus groups” cujos membros são encorajados e estimulados a falarem sobre o assunto da pesquisa. Foram escolhidas as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, pois segundo dados do IPEA estas aglomerações urbanas apresentam o maior número de pobres no Brasil.

Durante o mês de maio de 2003, foram realizados dois grupos de discussão mistos, em cada cidade, obedecendo a um critério de seleção que possibilitasse a homogeneidade social dos participantes. Pessoas pertencentes às classes sociais D e E. Os grupos foram divididos entre jovens (15 a 24 anos) e adultos (25 a 65 anos). Outra característica dos grupos é que estes foram compostos buscando mesclar:

Adultos: com as seguintes formas de ocupação (emprego formal, informal, desempregado, donas de casa e aposentado).

Jovens: com as seguintes formas de ocupação (somente estudassem, estudassem e trabalhassem e desocupados totalmente).

Todas as reuniões dos grupos de discussão foram gravadas em áudio e vídeo. O resultado foi a seleção de comentários dos grupos que discutiu suas experiências, percepções, atitudes e comportamentos, sentimentos e sensações, satisfação ou insatisfações relativas ao assunto “Mobilidade”.

A seguir, apresentaremos a análise geral da pesquisa qualitativa, que serviu de base para constituirmos o questionário da pesquisa quantitativa que aplicamos nas mesmas regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo horizonte e Recife).

Motivos e características de deslocamentos dentro das regiões metropolitanas

A saída para o trabalho ou a procura de emprego, é o principal motivo para deslocamentos em todos os grupos. Entre os mais jovens existem saídas para estudo e busca de lazer e diversão. Além dos deslocamentos para o trabalho, existe entre os adultos comentários sobre deslocamentos para visitar parentes, ir a igreja e ao médico ou para levar filhos e netos para escola.

O movimento pendular caracterizado pela ida ao destino e a volta para casa sem demais paradas é predominante em todos os grupos.

Quanto aos meios de deslocamento o ônibus é preponderante, porém, também é comum andar a pé e utilizar transportes alternativos, menos em Belo Horizonte onde este meio de transporte, segundo os participantes, foi praticamente extinto pelo governo, mas os participantes sentem falta, pois era uma boa alternativa de locomoção para eles.

“agora é proibido o trabalho dos perueiros. Eles rodam escondido. Mas era muito bom eles passavam a toda hora e levava a metade do tempo...”

“as vans eles tiraram. Tudo que é bom para pobre dura pouco...”

“eu andava de van porque era mais barato mas eles estavam tirando a clientela dos ônibus aí eles acabaram com as vans...”

Os demais meios são: bicicleta, metrô, trem e barca (Rio de janeiro). Destaque para cidade de Recife onde a bicicleta parece ser um importante meio de transporte.

Embora os ônibus sejam bastante utilizados, quando são pedidas razões para escolha de um meio de transporte, fala-se principalmente dos transportes alternativos e de andar a pé. Nota-se uma forte tendência à substituição parcial ou completa, quando possível, de transportes motorizados por andar a pé, decorrência da falta de recursos ou desvio dos mesmos para outras necessidades.

Razões para o uso de transportes alternativos: O preço mais barato, a possibilidade de negociações diversas e a rapidez são os principais motivos citados para utilização do transporte alternativo. Deve-se considerar que estes fatores, na maioria das vezes, superam o receio de acidentes e a insegurança que os participantes demonstram em relação às Kombis e Vans. Moto-taxi só foi citado no Rio de Janeiro e em Recife servindo a moradores das favelas, em São Paulo e Belo Horizonte não houve comentário a este respeito.


“na kombi posso até pagar mais barato se eu falar com o motorista. No ônibus se faltar algum dinheiro o trocador não deixa por mais barato a passagem. O motorista da kombi me deixa entrar se faltar 5 centavos...”

“no ônibus se faltar algum dinheiro o trocador não deixa por mais barato a passagem...”

“eu prefiro ir de kombi porque o transporte alternativo ultimamente é o transporte mais econômico...”

“as vans cortavam caminho e eu ia mais rápido para casa. O motorista perguntava onde as pessoas iam ficar e já passava nos lugares certos...”

“eu ando de kombi não é porque eu goste é porque é mais barato 0,30 e também é mais rápido. O ônibus demora muito e eu não quero chegar atrasada então eu pego uma kombi embora seja mais perigoso...”

“eu prefiro a kombi porque é mais rápido. O ônibus você espera muito tempo no ponto...”

“com os perueiros a gente chega mais rápido nos lugares...”

“nos ônibus vai entrando gente até não poder mais. Quando tinham as vans só cabia quem estava sentado e não ficava um monte de gente imprensada...”

“a kombi passou em um buraco e quase desmonta. Mas eu ando de kombi porque é mais rápido...”

“a kombi é mais rápida porém também é imprudente no trânsito...”

“a única opção é o transporte alternativo, embora todos saibam aqui que não é seguro...”

“kombi, porque é mais rápido e dependendo de alguns casos é mais barato.
As kombis e vans tem limite de passageiros e depois que lota ela só para onde o passageiro quer...”

“eu adoro andar de moto táxi é muito rápido...”

Razões para andar a pé: Entre os modos de locomoção andar a pé parece ser o que mais motivos apresenta em relação a falta de dinheiro. Longas caminhadas substituem trechos que seriam percorridos por outro meio de transporte. Mas o medo de assaltos e a insegurança estão presentes em vários relatos. São comuns relatos de casos em que o empregador não fornece o número suficiente de passagens para o deslocamento entre o trabalho e a residência do trabalhador e também de casos em que o participante doa seus vales transporte a parentes que necessitam percorrer maiores distâncias. Nota-se também que algumas pessoas utilizam ajudas de custo que recebem para transporte em outras necessidades. Estes fatores reunidos resultam em pouca mobilidade, horas de caminhada e perda de tempo dos participantes dos grupos em todas as regiões metropolitanas pesquisadas.

“vou a pé quando não tenho dinheiro da passagem. Eu saio mais cedo e ando uma hora.

‘A gente anda a pé porque não tem jeito, mas eu acho muito perigoso...”

“minha filha às vezes vai a pé para o colégio por falta de dinheiro mas eu tenho medo porque é muito perigoso lá perto de casa...”

“às vezes ando a pé porque estou sem grana...”

“eu já andei muito a pé procurando trabalho por não ter dinheiro para passagem
se o dinheiro acabar tem que ir a pé...”

“eu vou a pé demoro uns 45 minutos para o trabalho...”

“para não gastar duas conduções eu vou a pé...”

“meu marido tem muita dificuldade para ir ao trabalho pois ele anda meia hora a pé até a estação do trem e depois mais meia hora da estação até o serviço.”

“meu filho ganhou um curso de computação em um sorteio na escola. Mas como o local do curso é longe eu vou dar meu vale transporte que recebo no trabalho para ele poder chegar no curso. Eu vou andando para o trabalho demoro uns 35 minutos, de ônibus seria mais rápido...”

“fica muito caro o transporte pra minha família. Eu ando mais a pé do que de ônibus.

‘Escolho um ônibus que eu pego mais longe, ando um trecho a pé, porque este ônibus é mais barato...”

“eu gasto 4 passagens por dia mas minha patroa me dá duas e eu vou andando o resto do caminho. Eu desço no centro e vou até o trabalho a pé, são 40 minutos a pé. Eu preciso trabalhar e tenho que aceitar. Às vezes eu pago do meu bolso porque fico com muitas dores nas pernas...”

“às vezes no trabalho me dão 5 reais para eu ir a algum lugar mas eu fico com o dinheiro e vou a pé. Até por questão de necessidade para comprar um pão comprar alguma coisa...”

“tenho que vender os vales do ‘trampo’ se não eu passo fome no final do mês...” “o meu marido faz isso...”

“o que geralmente acontece é trocar os vales por alimento...”

“minha vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho para economizar...”

Razões para andar de ônibus: Os participantes andam de ônibus principalmente por conta da segurança. Contudo, os preços normalmente são altos quando comparados ao transporte alternativo e existe pouca oferta de ônibus com maior conforto. Nota-se que quando o assunto é ônibus, a maioria dos participantes, mais reclama do que vê razões para utilizar este meio de transporte. Esta questão será descrita no item: O que há de melhor e pior nos transportes urbanos.
No Rio de Janeiro os participantes criticaram um pouco menos este meio de transporte.

“eu penso que nos ônibus são motoristas profissionais mas os perueiros eu não sei quem eles são...”

“ando mais de ônibus do que de kombi porque é mais seguro...”

“eu prefiro pegar o ônibus que é mais caro, mas é mais seguro...”

“o ônibus é seguro mas as kombis, o transporte alternativo, não...”

“as pessoas andam mais de ônibus que a pé por questão da violência. Eu sou office boy e ando muito de ônibus...”

“eu prefiro andar de ônibus porque os motoristas são mais responsáveis ao dirigir...”

“O que mais tem é acidente com van, por isso eu prefiro andar de ônibus...”

“ônibus e van, mas na vans eu tenho medo porque os motoristas andam adoidados...”

“quanto mais longe é o bairro do centro pior é o transporte coletivo. Os ônibus que andam perto do centro são melhores e mais limpinhos, os nossos são sujos e lotados...”

Razões para usar bicicleta: os participantes dos grupos do Recife foram os que mais citaram o uso da bicicleta como meio de transporte. A bicicleta é utilizada para vários fins por ser mais econômica, mas quem as usa cita os riscos que envolvem este meio de transporte. Em São Paulo surgiram alguns comentários sobre passeios em grupo entre os mais jovens. As transcrições a seguir foram obtidas quase que totalmente em Recife. Destaque para o comentário sobre a contagem das bicicletas que passavam na Avenida Norte.

“eu e meu patrão fizemos uma brincadeira na hora do almoço, nós paramos por dez minutos na avenida norte e marcamos nesse tempo quantas bicicletas passaram. Foram 109 bicicletas... Curitiba tem menos bicicletas que Recife e tem uma ciclovia...”

“eu trabalho em um colégio e tenho que estar lá as 6:00. Eu prefiro ir de kombi que é mais rápido, mas como é muito cedo custa muito a passar. Já o ônibus ninguém sabe a hora que ele vai passar, então eu vou de bicicleta...”

“em vez de gastar 1,30 eu vou de bicicleta e economizo esse dinheiro...”
“eu não tenho o dinheiro da passagem tenho que ir de bicicleta mesmo...”

“andar de bicicleta é mais barato, mas é perigoso...”

“vou para o trabalho de bicicleta que fica mais barato...”

“quando está chovendo meu marido larga a bicicleta e vai de kombi porque se for esperar pelo ônibus chega atrasado...”

“quando não vou a pé arrumo a bicicleta de um vizinho emprestado...”

“às vezes ando de bicicleta na rodovia, mas é perigoso...”

“bicicleta, todo dia vou para o trabalho de bicicleta...”

“meu marido vai de bicicleta para o trabalho todos os dias...”

“tem gente que trabalha com a bicicleta de carga vendendo água mineral e ganhando seu lucrinho...”

“aqui em SP tem muita subida e descida e cansa muito andar de bicicleta...”

“por divertimento às vezes junta uma turma para ir de bicicleta a alguma festa, às vezes até bem longe...”

Razões para andar de metrô e trem: Apenas nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo houve comentários sobre as razões para utilização do metrô ou trem. Estas recaem principalmente sobre a rapidez e o fato de não precisar enfrentar engarrafamentos. Quanto ao metrô, particularmente, percebe-se que a segurança e conforto do ar condicionado são os principais atrativos, além da rapidez. No Rio de Janeiro destaca-se o fato de que as pessoas de mais baixa renda usam o trem como meio de transporte, mesmo este não compartilhando dos principais atributos do metrô, como o ar-condicionado e a segurança. Outro fato que chama atenção é a existência de um comércio intenso de ambulantes que vendem produtos a preços baixos nos trens.

“no metrô e no trem a gente não fica preso em engarrafamento mas fica muito cheio. Uma lata de sardinha, mas é mais rápido que o ônibus...”

“o metrô é mais seguro que o trem...”

“o pior de tudo é andar de ônibus. É melhor andar de metrô porque é mais rápido e não passa calor...”

“quando eu estava trabalhando eu andava de metrô porque era mais rápido...”

“trem tem muitos camelôs...”

“no trem você compra de tudo...”

“o trem é o meio de transporte mais louco que tem, aparece todo tipo de gente, eu acho o maior barato. Outro dia tentaram até me converter de religião...”

“o trem é mais rápido...”


Com relação ao tempo gasto pelos participantes em seus deslocamentos no dia-a-dia, este se mostrou bastante variado. Ocorreram relatos de 15 minutos até 4 horas de deslocamento não havendo preponderância em tempos elevados.
Motivos da não mobilidade:

Foi indagado aos participantes se hoje eles se locomovem menos que antigamente. Por que então isto estaria acontecendo? As respostas construídas a partir desta pergunta apontam para os seguintes cenários:

Falta de dinheiro decorrente do desemprego e alto preço das passagens

A violência e a insegurança

O stress e falta de paciência provocados por: poluição, demoras, falta de conforto e engarrafamentos

Dificuldades no transporte de crianças para lazer e diversão

“oferta de transporte tem, o que falta mesmo é dinheiro e emprego...”

“eu só vou a algum lugar se estiver com muita vontade mesmo, tem muito assalto hoje em dia...”

“as pessoas estão mais estressadas e sem paciência com nada. Às vezes o ônibus demorou 5 minutos ela diz que demorou 20... As pessoas não saem de casa porque não têm paciência de esperar o ônibus, estão estressadas...”

“imagina você com duas crianças num domingo esperar por duas horas por um ônibus no ponto, vai a um zoológico e depois mais duas horas para voltar para casa. Eu não saio de casa...”

 

Motivos e características de deslocamentos para fora da região metropolitana

Poucos foram os relatos sobre deslocamentos mais distantes. Aparece de forma marcante o fato de que está diminuindo a quantidade de viagens e o principal motivo é a falta de dinheiro. O preço das passagens e custos com alimentação são considerados altos demais. Visitar parentes que vivem em outros estados é o principal motivo para viagens. Entre os mais jovens, viajar a lazer e diversão tem prioridade. O ônibus é praticamente o único meio de transporte “acessível” economicamente para percorrer longas distâncias. Uma alternativa citada pelos participantes é a divisão de despesas, como combustível, com alguém que possua um veículo ou outro meio de transporte alugado. Porém, esta prática é mais comum em viagens mais curtas e a lazer.

“eu tenho vontade de conhecer a terra onde eu nasci, mas falta dinheiro...”

“é tão cara a passagem para viajar que eu nunca viajei na minha vida. É muito caro, eu não tenho condições...”

“eu não tenho dinheiro para viajar...”

“não vou a lugares mais distantes por falta de dinheiro, mas eu gostaria de viajar...

“a galera sempre se junta de 20 ou 30 amigos para viajar nesses ônibus alugados...”

“eu quase não saio do município...”

“não viajo até porque tenho familiares e não posso viajar e deixar eles para trás...”

“eu tive que sair da Bahia e vir para aqui que tem trabalho porque eu sou pedreiro...”

 

Influências do transporte na escolha da moradia

Alguns participantes, principalmente os mais jovens, não sabem responder se houve ou não influência do transporte na escolha de suas moradias. No caso dos mais jovens, os pais já moravam no local quando eles nasceram e por isso não têm essa informação. Por outro lado, entre os adultos, a oferta de meios de transporte, influencia na escolha da moradia. Normalmente, o fato da valorização das moradias onde existe uma boa oferta de transportes coletivos, acaba por afastar os mais pobres dos grandes pólos de trabalho, pois o mercado imobiliário vê nesta necessidade de deslocamento um bom argumento para aumentar o preço do aluguel dos imóveis. Os relatos a seguir descrevem com detalhes as dificuldades dos participantes e uma realidade do mercado relacionado à mobilidade dos menos favorecidos.

“sempre morei no mesmo apartamento com meus pais...”

“eu moro lá desde que nasci e minha mãe não quer sair de lá porque tem muitas coisas por perto...”

“sempre morei no mesmo apartamento com meus pais...”

“minha mãe só mora lá porque o transporte é fácil. O transporte é fácil e tem padaria...essas coisas...”

“procurei um barraco que passa um ônibus perto para eu poder ir para o trabalho...”

“o barracão pode ser do tamanho desta sala aqui mas se passa muito ônibus o preço triplica eu pagava 120,00 de aluguel agora estou pagando 200,00 porque é perto de avenida e passa muito ônibus...”

“eu mudei para um lugar menor e pago 250,00 porque é perto de uma pracinha e passa mais ônibus...”

“a própria imobiliária já diz assim: você vai morar em um ótimo lugar que passa muito ônibus. Elas dizem até o nome de umas 4 ou 5 linhas que passam no local...”

“as imobiliárias se valem do argumento do transporte para inflacionar o preço do aluguel...”

“ que você está falando é o mesmo que comprar uma casa em um lugar melhor. Mas ninguém aqui tem condições para isso, eu creio que é difícil pelo salário que nós ganhamos. As casas onde o transporte é melhor ficam mais próximas do centro.

“nós mudamos para Maranquape por que tem mercado, padaria e feira tudo bem perto para ir andando...”

 

A mobilidade no acesso ao trabalho e na procura de trabalho

Independente de cidade, sexo ou faixa etária, as questões que envolvem trabalho e mobilidade recaem sobre uma nova suposta “regra das empresas”: Só pagar duas passagens por dia para cada trabalhador. É possível notar uma certa dose de conformismo dos participantes. As formas de lidar com esta dificuldade vão desde mentir sobre as necessidades de transporte e local onde moram a andar trechos a pé para não perder o emprego. Passando é claro por pagar do próprio bolso a diferença da passagem, alternativa que menos agrada pela falta de recursos financeiros. Alguns relataram que deixam de procurar trabalho por não terem dinheiro para locomoção e, por isso, muitas vezes são ajudados por amigos e parentes nesta busca. Entre os que já estão empregados, existe a insegurança de perder o emprego em caso de contenção de despesas da empresa. As demais barreiras de acesso ao trabalho retratam problemas relacionados aos meios de transporte como: demora, falta de conforto e superlotação dos ônibus. Porém, estas barreiras não parecem ser tão intransponíveis como a exclusão do mercado de trabalho daqueles que precisam utilizar mais de dois transportes diários para chegar ao local de trabalho, as empresas parecem preferir empregar aqueles que moram mais próximo.

“toda firma só contrata você se você pegar apenas uma condução. Parece que é lei não é?...”

“eu preferi dizer na hora de conseguir um emprego na xxxxx que só precisava de duas passagens para ir ao trabalho mesmo tendo que pagar o resto ou ir andando. Porque assim eu poderia competir com os outros candidatos...”

“as empresas têm preferência pelas pessoas que pegam apenas um ônibus para ir ao trabalho... a pessoa que precisa de dois ou três vales transporte é difícil arrumar emprego...”

“Eu tenho pessoas em casa que estão procurando emprego e firma nenhuma esta dando mais do que dois vales por empregado... o patrão só paga um transporte, o outro a pessoa que se vire...”

“têm empresas que na hora de contenção de despesas eles mandam embora os funcionários que dão mais despesa com transporte...”

“a empresa não quer saber quem é o melhor e sim quem pega menos vales transporte.
Eu recebo vale transporte mas tenho medo de ser mandado embora porque eu pego três vales transporte e na hora da contenção de despesas tem gente que faz o mesmo serviço que eu e pega um só...”

“no meu caso eu preciso morar a três km e meio do trabalho para a empresa pagar a condução. Como eu moro a três km vou a pé, já é normal. Quando eu estou inspirado eu peço para o trocador e levo na conversa...”

“eu recebo um condução e pago a outra do bolso...”

“é uma condução só se quiser ter trabalho, se não quiser... Pra mim é uma humilhação e tanto eu tenho que gastar 50 ou 60 reais do meu bolso...”

“a gente deixa de ir procurar por não ter dinheiro...”

“para procurar emprego eu tenho que me vestir um pouco melhor isso dificulta porque o motorista não acredita que você está sem dinheiro no bolso para pagar a passagem e não deixa eu sair sem pagar a passagem...”

“para procurar emprego, quem me ajuda mesmo é minha irmã que me dá alguns passes para eu me movimentar...”

“eu deixo de ir a dois, três lugares procurar emprego porque o dinheiro não dá...”

“eu parei de procurar emprego porque eu não achava e a despesa com transporte era demais, agora eu arrumei um bico e estou trabalhando...”

“eu desisti de um emprego depois que fiz as contas e vi que pagando a passagem a mais que a empresa não pagaria era melhor ficar em casa. Tem que ganhar muito bem se não eu ia pagar para trabalhar...”

“minha vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho para economizar...”

“eu vou a pé para gastar menos mas tenho medo de ser assaltado...”

“às vezes eu peço a um colega emprestado o dinheiro do ônibus para ir ao trabalho, mas não deixo de ir...”

“eu vendi minha cesta básica para comprar vale transporte se não eu não poderia ir para o trabalho...”

“eu recebo vale transporte para ir trabalhar mas sempre acaba antes do final do mês, aí em peço emprestado e depois eu devolvo...”

“a gente paga uma coisa, paga outra e no meado do mês acaba o dinheiro para pagar o ônibus e eu vou a pé mesmo para o trabalho...”

 

Acesso a escolas e equipamentos de saúde

Em todas as regiões metropolitanas houve relatos sobre a proximidade de escolas e postos de saúde dos locais onde os participantes moram, facilitando o deslocamento a pé. Por isso, é possível perceber que, para eles, escolas e postos de saúde estão dispostos de maneira uniforme nos municípios. Entretanto quando existe a necessidade de mobilidade para se chegar a hospitais e cursos mais específicos a falta de dinheiro se torna um problema. Na hora de ir a um curso mais distante, ocorrem desistências e atrasos e nos casos de emergência é difícil ter a quem recorrer. As soluções nos casos de locomoção até o local de ensino muitas vezes dependem do sacrifício de parentes (exceção do Rio de janeiro onde existe esta gratuidade). Em casos de emergência procuram-se amigos, rádios patrulhas, serviços informais de resgate e até mesmo uma charrete é improvisada. Alguns dos relatos abaixo demonstram até que ponto as comunidades improvisam em momentos de emergência.

“em 99 eu tive que parar de estudar em um colégio melhor porque eu não estava trabalhando e meu pai não tinha dinheiro para pagar a passagem. Então eu voltei a estudar perto de casa...”

“eu deixei de estudar porque não tinha condições de pagar a passagem para ir até a escola”

“se você quiser uma educação melhor tem que estudar no centro da cidade. Se você trabalha, tudo bem, se você não trabalha tem que tirar do bolso do pai...”

“da minha casa para ir até o posto de saúde dá uma meia hora a pé, mas eu prefiro do que pegar condução devido a minha condição financeira...”

“lá onde eu moro tem um rapaz que tem carro e ele cobra uma taxa por mês das pessoas que precisam se locomover para um hospital. Ele dá o número do celular dele para quem precisar. Ele leva ao hospital a qualquer hora e fica com essa pessoa o tempo que for necessário. Se for demorar ele volta pra casa e vai buscar na hora que a pessoa precisar...”

“se meu garoto adoecer eu tenho que pedir a qualquer um que estivar na frente para nos levar ao hospital...”

“na hora de uma emergência se eu tiver que ir mais rápido para um hospital tenho que pedir ajuda porque nessa hora ninguém pode esperar um ônibus...”

“onde eu moro não entra ônibus e às vezes eu quero ir para o médico e tenho que andar uns 30 minutos até a avenida para pegar um ônibus...”

“depois das 11 horas o moto táxi fica mais caro e se você quiser ir ao posto de saúde tem que ir de carroça...”

“sou prejudicada quando saio da aula as 10:40 e fico no ponto até as 12:00 e o ônibus passa lotado não consigo nem passar da escada é muito lotado...”

“já tive que ir ao hospital ver minha filha e fiquei mais de uma hora esperando no ponto do ônibus...”

“minha sobrinha estuda, mas quando o ônibus atrasa ela chega atrasada na escola...”

“O tempo que eu levava para chegar ao colégio depois que eu saía do trabalho era muito grande e eu tive que parar de estudar...”

“em urgência eu quebro o galho com um amigo mesmo...”

“minha filha quebrou o pé e eu não tinha dinheiro para pagar um táxi. Nós ficamos 45 min esperando o ônibus e ele não passou para eu levar minha filha no pronto socorro, no final passou uma rádio patrulha e eu dei sinal. Eles levaram a gente, isso já era meia noite.
A solução em uma emergência é o vizinho ou a polícia...”

“o posto de saúde é perto da minha casa, fica a 5 minutos. Mas meu filho está fazendo um tratamento em um hospital mais longe e eu tenho que sair de casa as 5:00 da manhã e fico esperando o ônibus de 5:30 e desço na integração de Rio Doce e passo mais 00:20 esperando para pegar outro ônibus e descer lá às 7:00. A mesma coisa é na volta, é difícil e complicado...”

 

A questão do lazer

Entre todos os assuntos debatidos o deslocamento para lazer e entretenimento é a atividade que parece estar sendo mais prejudicada. Os motivos apontados são: pequena oferta de ônibus nos finais de semana, longas esperas no ponto e o custo de locomoção de uma família. Os relatos de mães sobre dificuldades e desistências de deslocamentos na companhia de filhos, para algum tipo de lazer, chamaram a atenção dos que ouviam.

“com as dificuldades no transporte às vezes a gente deixa de se iludir com o lazer, principalmente as crianças...”

“é muito difícil sair porque eu tenho 4 meninos e eu acho que menino não deveria pagar passagem. Até os dez anos não deveria pagar...”

“chega o final de mês e meu filho é mestre em pedir para ir na casa da avó dele, então são 4 ônibus, mas no final do mês sem chances. Eu reviro a casa, acho um monte de moedas, mas não dá o dinheiro das passagens. Meu dinheiro acaba bem antes do final do mês...”

“desanima sair de ônibus aos domingos com as crianças. Os ônibus demoram muito...”

“tem umas pessoas lá perto de casa que fazem um ou dois passeios por mês. Eles juntam um tanto de crianças e eles só cobram dos maiores e custa um real...”

“fica muito caro o transporte nos finais de semana para sair com a família...”

“fica difícil eu sair no final de semana. Fica caro pagar a passagem da minha esposa e da minha filha...”

“para visitar minha mãe fica caro. Então ou eu levo minha esposa ou levo minha filha ou então vou sozinho mesmo...”

“eu levei duas horas e meia para levar meu filho ao jardim zoológico e mais duas horas e meia para voltar. Final de semana é horrível sair com meu filho devido a demora no ponto para passar um ônibus...”

“eu prefiro ir ao zoológico que é perto da minha casa porque posso ir andando. Não vou ficar com meu filho duas horas dentro de um ônibus ou esperando ele passar...”

Os demais relatos sobre mobilidade e lazer envolvendo jovens e adultos apontam para problemas parecidos como a falta de dinheiro, a demora dos ônibus nos finais de semana e durante a madrugada onde em alguns lugares o transporte é interrompido. Uma solução bastante comum parece ser a reunião de grupos e a divisão dos custos de transporte ou mesmo a carona. Sair a pé, reduzindo as alternativas de lazer, ou não sair de casa também é usual entre os participantes. Destaque para Belo Horizonte, onde por falta das Vans e Kombis, alguns taxistas passam a fazer a chamada “lotada” durante os finais de semana transportando grupos de jovens. Nota-se, principalmente entre os adultos, um certo desânimo quanto a sair de casa para entretenimento. Já os mais jovens parecem ter mais disposição para enfrentar as dificuldades e riscos.

“perto da minha casa não tenho opções de lazer tenho que ir de carona com um amigo.
Junto uns amigos, alguém tem carro, a gente divide e vai a algum lugar...”

“eu, minha irmã e algumas pessoas que moram perto nos dividimos e vamos de carona.
Vou passear mais quando algum amigo me leva de carona..”

“eu vou sempre para o interior acampar. Vou de lotação. Mas às vezes o que me impede de ir é a falta de grana...”

“tem um ônibus perto da minha casa que me leva até a igreja mas eu vou andando para economizar...”

“eu, para sair a lazer, não saio, porque tenho que pagar a passagem de duas pessoas...”

“sábado e domingo eu não saio para lado nenhum porque não tenho dinheiro...”

“quando a gente está voltando de algum lugar à noite, durante o final de semana, muitas vezes o táxi faz lotação porque não tem ônibus e eles se aproveitam para levar as pessoas do ponto...”

“tem o especial que você paga 10 reais e vai para cachoeira e faz outros passeios...”

“muitas pessoas fazem excursões nesses ônibus alugados. Pregam uma propaganda nos postes com o valor e o telefone para contato...”

“algumas vezes nos reunimos em uma turma para alugar um ônibus, assim fica mais barato...”

“cada uma dava 5 reais e alugávamos uma Kombi...”

“às vezes a gente junta uns amigos e divide um lotação para ter um dia de lazer...”

“fica sem lazer, fica em casa vendo televisão mesmo...”

“quando eu ganhava vale transporte no trabalho eu gostava, mas só podia usar para ir ao trabalho e eu gosto muito de ir na igreja e como o dinheiro é pouco eu não podia ir...”

“fico na casa de um colega, assisto um jogo na tv, tomando cerveja...”

“a gente quer sair para se divertir um pouco, mas dia de domingo não é muito bom não. Às vezes está cheio, às vezes passa direto e às vezes demora...”

“o carro é o meio mais próprio para se locomover para o lazer e como eu não tenho, eu deixo de ir...”

“quando tenho pouco dinheiro para sair, pagar passagem eu prefiro pegar este dinheiro e ir no boteco da esquina e tomar tudo de cerveja...”

“nos finais de semana só posso sair à noite se for de carro com um amigo, porque não encontro ônibus para voltar para casa. Pode acontecer de eu dormir na rua...”

“muitas vezes eu deixo de sair por causa de transporte. Como que eu vou? Que ônibus eu vou pegar? Como que eu vou voltar? O ônibus para de rodar cedo...”

“o ônibus acaba meia noite e meia, uma hora, no máximo, e eu não tenho como voltar para casa depois disso. Tenho que esperar clarear o dia para voltar para casa...”

“Como não tenho como voltar para casa depois de certa hora, às vezes durmo no ponto até começar a circular ônibus novamente...”

“fim de semana é horrível, os ônibus somem das cidade...”


Reflexos do gasto com o transporte no orçamento familiar

O pequeno orçamento familiar é o principal motivo para a baixa mobilidade dos participantes. Por esse motivo, ocorrem reações intensas quando se fala sobre os gastos com o transporte no dia-a-dia. Estes gastos são considerados, na maioria das opiniões, como de médio para alto. Os reflexos na alimentação e no entretenimento são percebidos espontaneamente como os mais prejudiciais. Os demais gastos mencionados como racionados por conta do alto custo do transporte são: contas da casa, despesas com saúde, vestuário, estudo e a locomoção para procura de emprego.

“tem dia que eu não tenho dinheiro para comprar pão e eu paro e fico chorando que nem louca. É um absurdo você não ter dinheiro para comprar pão, às vezes o filho pede um coisa boba de um real, um chocolate e não dá para dar para o filho...”

“às vezes meus meninos deixam de jogar bola porque eu não tenho dinheiro...”

“deixo de sair de casa com freqüência devido ao preço do transporte. Fico tanto tempo em casa que não sinto mais falta...”

“se tomar muito chope tem que ir a pé para casa...o chopinho de sexta feira fica para o mês que vem...”

“a qualidade de vida e o lazer fica prejudicado...”

“minha mãe é crente e às vezes deixa de ir na igreja por falta de dinheiro...”

“eu deixo de ter mais contato com minha filha devido ao dinheiro que eu gasto de condução...”

“alimentação. Na minha família poderíamos ter uma alimentação melhor...”

“eu parei minha fisioterapia por não ter condições de pagar a passagem. Quando eu comecei era um preço, mas a passagem aumentou e eu não tive mais condições de ir...”

“o dinheiro que você paga na passagem você poderia estar pagando um plano de saúde...”

“pago a conta de luz com esse dinheiro...”

“com o dinheiro da passagem eu prefiro gastar o dinheiro em casa...”

“fazer um curso. Eu gasto com transporte no mínimo 40 reais e com estes 40 reais eu poderia fazer um curso...”

“eu queria fazer um curso de hotelaria, mas se eu pagar o transporte eu não vou comer nada...”

“eu poderia estar fazendo meu curso de música...”

“Eu quero comprar um tênis novo para meu filho e não posso porque tenho que economizar aquele dinheiro para alguma coisa. E a passagem do ônibus pesa muito. É lógico que pesa...”

“com esse dinheiro eu poderia sair mais para procurar emprego...”

“são ambas as coisas. Poder procurar emprego e ter mais lazer...”


Estratégias de mobilidade e formas de gastar menos com transporte

Os risos levemente constrangidos surgiram neste momento. A falta de dinheiro e a necessidade levam alguns participantes a burlar o pagamento das passagens. As estratégias para não pagar passagem são bem parecidas em todos os grupos, contudo, notam-se algumas características por região metropolitana, mas comuns a todos.


Belo Horizonte – Ao invés de pedidos de carona para o trocador ou para o motorista existe a intimidação “passar na marra”.

“eu falei que estava caçando serviço e precisava trabalhar e não ia sair do ônibus. Eles iam chamar a polícia, mas os outros passageiros pagaram a passagem...”

“acho que tem mais intimidação do que 0800, isso de pedir não existe mais não. O trocador não vai arriscar a vida dele para não deixar um ou dois não pagar a passagem...”

“como a violência está muito grande as pessoas estão com muito medo e o trocador não quer nem discutir, deixa passar...”

Rio de Janeiro – Se valer da gratuidade de estudante para não pagar a passagem sem estar estudando. Usar carteirinha falsa ou uniforme.

“carteirinha do colégio, camisa do colégio, mesmo em horários em que não vou para o colégio. Jaleco do cefet...”

“sou viciada em usar a camisa do colégio para ir a qualquer lugar...”

“Eu já me inscrevi em cursos só para conseguir o jaleco e a carteirinha e não pagar passagem...”

Recife – Negociar com o trocador e pagar mais barato não girando a roleta.

“passar imprensadinho e pagar uma passagem só...”

“pago 0,50 e passo por baixo. Mas isso é mais comum a noite...”

“se alguém aqui disser que não passou por baixo da roleta está mentindo...”


São Paulo – Pedir carona no ônibus e passar por baixo da roleta sem pagar.

“Eu não gosto de pedir para andar de graça no ônibus mais se tiver de pedir eu vou pedir”

“quando eu quero ir de ônibus para o trabalho e não tenho dinheiro eu peço para o trocador me deixar passar sem pagar...”

“a idéia do povão mesmo é não pagar nada. Passar por baixo da roleta... Pular a catraca, falando com o trocador...”

As demais formas de não pagar passagem ou gastar menos são mencionadas no decorrer dos grupos:

“eu já levei uma nota de 50 reais para o trocador não ter troco e eu não pagar a passagem...”

“ando a pé... as pessoas andam a pé para economizar o dinheiro do ônibus...”

“como a passagem de ônibus está muito cara, às vezes eu pego um dinheirinho e ponho gasolina no carro da minha tia e peço para ela me levar...”

“eu pego o escolar porque faço o segundo grau. É um ônibus financiado pela prefeitura, você paga um preço mais barato...”

“eu passei por uma perícia para ter a carteirinha e não pagar o transporte por problemas de saúde, mas até agora não tive resposta...”

“carona no carro dos namorados das minhas amigas...”

“o passe fácil facilita para mim porque eu boto 26,00 de crédito e são quarenta passagens...”

“meia passagem para estudante é muito bom, mas primeiro tem que colocar crédito que é o problema. Eu só ponho crédito quando fico no pé do meu pai que não mora comigo não...”

“em tempo de festa fica mais barato todo mundo se juntar e alugar um ônibus ou outra condução...”

“em vez de gastar 1,30 eu vou de bicicleta e economiza esse dinheiro...”

“a kombi é mais barata e no final do mês você vai economizar bastante pegando os transportes alternativos...”

“um jeito massa é dizer que pegou o ônibus errado...”

“pego o ônibus para Porto de Galinhas, mas compro a passagem para mais perto que é mais barato, então eu finjo que estou dormindo e passo direto...”

“se fiquei desempregada e estou com o passe do desempregado eu empresto o vale para minha mãe...”

“eu pulava o muro na estação de trem...”

“não sair de casa...”

“eu era acompanhante do meu filho que era deficiente e não pagava...”

O vale transporte também é mencionado diversas vezes como uma forma de se gastar menos com transporte. Porém, devido ao ciclo que se criou em torno desta forma de auxílio ao trabalhador, este benefício se torna totalmente descaracterizado de seus objetivos. O comércio paralelo do VT é comentado em diversas oportunidades pelos participantes. Nota-se de um lado a necessidade de vendê-los para, muitas vezes, comprar alimentos e de outro a oportunidade de gastar um pouco menos com transporte comprando estes mesmos vales no mercado paralelo. O VT é transformado em moeda aceita em diversos locais.

Comprar, vender e trocar vales parece ser uma prática para contornar necessidades, compondo orçamentos e sendo utilizado por quem não tem um trabalho formal, logo, sem direito ao mesmo. Este ciclo gera uma pequena economia para quem compra os vales e estica o salário de quem os vende. Contudo, na prática, os resultados mostram que o trabalhador sai perdendo e muitas vezes é obrigado a andar a pé.

“quando a gente está meio dura, minha mãe vai e vende alguns passes mais barato para esses marreteiros da barraquinha para comprar comida, geralmente, leite e pão, coisas do dia dia...”

“minha vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho para economizar...”

“o vale transporte prejudicou o trabalhador em vez de melhorar. Porque a empresa não dá mais de um vale por dia e quem mora longe sai prejudicado...”

“até os bares, lojas e o mercado central recebem os vales transporte como dinheiro...eu já troquei muitos vales, já comprei, já vendi...”

“tenho que vender os vales do trampo senão eu passo fome no final do mês...o que geralmente acontece é trocar os vales por alimento...”

“o vale sai mais barato, eu compro o vale por um real...tem os cambistas que vendem os vales nas paradas dos ônibus e fica mais barato...”

“é comum comprar os vales para gastar menos com o transporte...eu às vezes compro 10 vales e já livro um dinheirinho...”

“o comércio dos vales acaba ajudando a quem precisa mais, a quem tem mais necessidades...”

“no final do mês sempre falta vale transporte e eu compro a um real...”

“andar de kombi e comprar vale transporte porque comprando esse vale você vai de ônibus se não quiser andar de kombi...”

“a barraquinha vende o vale 15 centavos mais barato...com esse vale que eu compro mais barato eu ando de ônibus que eu gosto mais e não ando de kombi

“os vales que eu recebo às vezes não dá porque às vezes tenho necessidade de ir a um médico ou um sobrinho me pede dinheiro para o transporte, então fica difícil...”

“eu recebo vale transporte para ir trabalhar mas sempre acaba antes do final do mês, aí em peço emprestado e depois eu devolvo...”

“eu vendi minha cesta básica para comprar vale transporte senão eu não poderia ir para o trabalho...”

“com o cartão dá para vender a passagem dentro do ônibus mesmo, é só passar o cartão e deixar outras pessoas passarem e pegar o dinheiro...”


A influência (ou não) da telefonia na mobilidade dos mais pobres

Não é comum entre os participantes dos grupos possuir aparelhos telefônicos, móveis ou fixos. Normalmente eles se referem a outras pessoas que têm aparelhos ou fazem suposições. De forma geral, duas linhas de pensamentos predominaram:

De que o deslocamento das pessoas diminui devido à comodidade de falar com parentes, amigos ou mesmo por ter a possibilidade de comprar por telefone;

“tem uma amigo que eu sempre visitava, mas agora só vou de dois em dois meses. Eu digo a ele ‘ tenha calma aí que eu não tenho dinheiro para pagar a passagem’ e eu digo isso por telefone...”
“em vez de ir a farmácia você pede por telefone...”

“com certeza a necessidade de falar com alguém é resolvida por telefone. Você não precisa se deslocar pra falar com alguém. Se não tem celular fala do orelhão mesmo...”

De que a telefonia não influi no aumento ou diminuição da mobilidade, e sim, facilita a precisão destes deslocamentos, minimizando a perda de tempo;

“hoje mesmo eu tive que buscar um exame, então eu liguei para saber se estava tudo bem para não ter que voltar sem o exame...”

“eu ligo antes para saber a situação para não ir a algum lugar e perder a viagem...”

“ajuda a economizar passagem porque você já vai na certa...”

Em menor escala, aqueles que trabalham como autônomos relatam o aumento de suas visitas a clientes e vêem o telefone como uma ferramenta de trabalho. Entre os mais jovens, o uso do telefone facilita a marcação de encontros, aumentando as saídas a lazer.

“A questão do telefone acaba sendo uma faca de dois gumes você pode acabar se deslocando mais ou menos. No meu caso os clientes me ligam e eu me desloco mais por isso...”

“tem duas faces por um lado você vai andar menos. Mas se você olhar pela diversão você vai andar mais. Sempre tem alguém que liga e fala vem para cá...”

O que há de melhor e pior nos transportes urbanos

Em todos os grupos o silêncio e a dúvida normalmente precedem as opiniões sobre o que existe de melhor nos transportes urbanos. Destaque para Belo Horizonte (adultos), onde o silêncio foi mais longo e para São Paulo (jovens), onde a primeira opinião foi um sonoro: “nada”. Com um certo estímulo do moderador e deixando as insatisfações um pouco de lado, os participantes disseram que o que há de melhor nos transportes urbanos é:

Ônibus novos e confortáveis
O transporte alternativo
O metrô
Educação e amabilidade dos motoristas
Interação entre os passageiros durante o transporte
Variedades e opções de transporte
Deslocamentos rápidos e ágeis
Comprar e vender vales transporte no mercado paralelo
Ônibus destinados a estudantes e pessoas mais carentes

Por outro lado, quando indagados sobre o que existe de pior nos transportes urbanos, as opiniões surgem rapidamente.

Fatores que envolvem os profissionais de transporte:

Estressados pelas dificuldades da profissão / sem educação
Não param para idosos e estudantes / recebem ordens para isso
Desrespeitam os ciclistas
Correm demais / cometem imprudências
Passam por fora no ponto
Não possuem treinamento
Trafegam com a porta aberta

Fatores causadores de stress e irritabilidade:

Excessiva espera no ponto do ônibus
Ônibus cheios / lotados / não ter onde segurar
Transito intenso / engarrafamentos
Poluição do ar / poluição sonora
Grande quantidade de carros de passeio e poucos ônibus
Horários irregulares / transporte escasso no fim de semana de madrugada

Fatores de segurança:

Vandalismo de passageiros
Violência / Assaltos / Trombadinhas
Utilização de transportes públicos para transporte de drogas
Queima de ônibus
Disputa de rotas entre kombis e vans
Disputa de territórios entre facções criminosas

Fatores de conforto:

Bancos duros / quebrados
Trepidação do ônibus
Calor do motor
Falta de limpeza
Viajar em pé no ônibus
Pouca manutenção dos ônibus
Ônibus velhos / caindo aos pedaços
Ruas esburacadas / asfalto precário

Fatores econômicos:

Preços altos
Aumentos constantes nas tarifas


Sugestões dos participantes para melhorar a mobilidade

As sugestões mais diversas e inusitadas surgiram em todos os grupos. Abaixo estão descritas as principais opiniões para, segundo os participantes, aumentar a mobilidade das pessoas:

Aumentar a concorrência
Aumentar o número de ônibus
Bafômetro para motoristas
Ciclovias
Colocar o ônibus minhocão
Colocar ônibus novos
Com uma mesma passagem você poder ir a vários lugares
Conscientização das pessoas para preservar os transportes públicos
Consertar as vias públicas
Construir túneis
Controle de natalidade
Criança até 10 anos não deveria pagar passagem
Detetizar os ônibus
Diminuir o intervalo entre os ônibus
Educação para os motoristas
Mais conforto
Mais estações de metrô
Mais fiscalização para os transportes
Mais informações para não perder tempo no ponto
Mais microônibus, que são mais rápidos
Mais sistemas de integração
Mais trens
Melhorar o itinerário dos ônibus
Menos carros de passeio nas ruas
Menos faróis (sinais) para os ônibus, mais preferências para os ônibus nas vias
O governo facilitar a compra de motos
Ônibus saindo dos bairros no final de semana para lazer com as crianças. Sairia de manhã e voltaria à tarde
Passagens mais baratas
Pegar o diretor da MTU e colocar ele sem carro para pegar ônibus
Regulamentar os transportes alternativos
Saber dos horários dos ônibus
Segurança
SP está precisando de mais metrô, baldeação e corredor para os ônibus
Tapar buracos
Tirar os ônibus e colocar mais lotação que é mais rápido
Trocadores andarem com troco
Um corredor somente para os ônibus ia facilitar mais a vida do povo
União das pessoas que têm carro com as que não têm. Quem vai para o mesmo lugar
Via expressa sem sinal


Diferentes enfoques entre homens e mulheres

Foram percebidas nas reuniões algumas particularidades pertinentes ao sexo feminino em relação à mobilidade. Existe na figura da mulher uma alta responsabilidade e conhecimento sobre os deslocamentos de toda a família.
Neste ponto, a relação com as crianças é intensa. Em vários depoimentos as mulheres retratam as dificuldades que geram desistências no deslocamento na companhia de crianças. Os principais motivos são: falta de recursos financeiros, escassez de transportes no final de semana com longas esperas em pontos de ônibus, lotação dos ônibus e a falta de cavalheirismo.


“levo meus filhos para escola e na volta para a casa...”

“o posto de saúde é perto da minha casa, levo meu marido a fisioterapia...”

“meu marido ia para o trabalho de bicicleta mas o carro bateu nele e ele voou uns dois metros...”

“com as dificuldades no transporte as vezes agente deixa de se iludir com o lazer, isso principalmente as crianças...”

“imagina você com duas crianças num domingo esperar por duas horas por um ônibus no ponto vai a um zoológico e depois mais duas horas para voltar para casa. Eu não saio de casa...”

“as pessoas que tem filhos tem que cortar o lazer se tiver que ir para longe...”

“o ônibus é muito demorado e vem muito cheio principalmente para quem leva uma criança...”

“eu com meu filho ninguém da lugar pra gente sentar. É muito difícil sair sem ser por obrigação...”

“a pessoa que tem muitos filhos não pode pagar as passagens...”

“minha filha as vezes vai a pé para o colégio por falta de dinheiro mas eu tenho medo porque é muito perigoso lá perto de casa...”

“eu para sair a lazer não saio porque tenho que pagar a passagem de duas pessoas...”

“é muito difícil sair porque eu tenho 4 meninos e eu acho que menino não deveria pagar passagem até os dez anos não deveria pagar...”


O assédio sexual também é lembrado em todos os grupos como sendo de grande constrangimento para as mulheres. A superlotação dos ônibus parece ser o momento propício para este tipo ação. Comentários feitos nos grupos de Belo Horizonte, Recife e São Paulo relatam que também os homens convivem com o assédio de mulheres.

“quando o ônibus esta cheio tem muito homem bobo que gosta de aproveitar da situação e fica relando em você...”

“já aconteceu comigo do ônibus lotado e um homem ficou relando em mim eles fingem que estão segurando e ficam lá relando...”

“não tem jeito os ônibus andam superlotados e agente sente que eles se encostam de propósito...”

“tem mulher que você passa perto dela e ela encosta a bunda para traz eu conheço uma colega que ela encosta nos homens de propósito. Ela diz que só gosta de pegar ônibus cheio porque se eles só fazem sacanagem ela também faz...”

“a mulher assedia também, eu já fui vítima mas dei o telefone. Mas elas são mais reservadas é só a questão de olhar...”

“Tem mulher safada que encosta na gente também ...”


Perfil sócio-econômico dos participantes

Sexo Participantes
Masculino 41
Feminino 47

Faixa Etária
15-19 23
20-29 30
30-39 16
40-49 10
50-59 4
Acima de 60 5

Grau de instrução
Analfabeto 1
1º grau (incompleto) 42
1º grau (completo) 6
2º grau (incompleto) 28
2º grau (completo) 11

Ocupação
Estudantes 26
Assalariados 42
Autônomos 5
Aposentados 6
Desempregados 31
Dona de casa 7

Região de moradia
Capital 58
Metropolitana 30


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