Introdução
O objetivo
geral deste projeto é conhecer e caracterizar os atuais padrões
de mobilidade e as condições de acesso aos serviços
de transporte coletivo pelas populações de baixa renda
em aglomerações urbanas. Estas informações
contribuirão para o estabelecimento de diretrizes e políticas,
referentes ao setor de transportes urbano e rodoviário de passageiros
no tocante a população de baixa renda.
Em sua
primeira etapa foi realizada uma pesquisa qualitativa, através
da realização de grupos de discussão “focus
groups” cujos membros são encorajados e estimulados a falarem
sobre o assunto da pesquisa. Foram escolhidas as regiões metropolitanas
de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, pois segundo
dados do IPEA estas aglomerações urbanas apresentam o
maior número de pobres no Brasil.
Durante
o mês de maio de 2003, foram realizados dois grupos de discussão
mistos, em cada cidade, obedecendo a um critério de seleção
que possibilitasse a homogeneidade social dos participantes. Pessoas
pertencentes às classes sociais D e E. Os grupos foram divididos
entre jovens (15 a 24 anos) e adultos (25 a 65 anos). Outra característica
dos grupos é que estes foram compostos buscando mesclar:
Adultos:
com as seguintes formas de ocupação (emprego formal, informal,
desempregado, donas de casa e aposentado).
Jovens:
com as seguintes formas de ocupação (somente estudassem,
estudassem e trabalhassem e desocupados totalmente).
Todas as
reuniões dos grupos de discussão foram gravadas em áudio
e vídeo. O resultado foi a seleção de comentários
dos grupos que discutiu suas experiências, percepções,
atitudes e comportamentos, sentimentos e sensações, satisfação
ou insatisfações relativas ao assunto “Mobilidade”.
A seguir,
apresentaremos a análise geral da pesquisa qualitativa, que serviu
de base para constituirmos o questionário da pesquisa quantitativa
que aplicamos nas mesmas regiões metropolitanas (São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo horizonte e Recife).
Motivos
e características de deslocamentos dentro das regiões
metropolitanas
A saída
para o trabalho ou a procura de emprego, é o principal motivo
para deslocamentos em todos os grupos. Entre os mais jovens existem
saídas para estudo e busca de lazer e diversão. Além
dos deslocamentos para o trabalho, existe entre os adultos comentários
sobre deslocamentos para visitar parentes, ir a igreja e ao médico
ou para levar filhos e netos para escola.
O movimento
pendular caracterizado pela ida ao destino e a volta para casa sem demais
paradas é predominante em todos os grupos.
Quanto
aos meios de deslocamento o ônibus é preponderante, porém,
também é comum andar a pé e utilizar transportes
alternativos, menos em Belo Horizonte onde este meio de transporte,
segundo os participantes, foi praticamente extinto pelo governo, mas
os participantes sentem falta, pois era uma boa alternativa de locomoção
para eles.
“agora
é proibido o trabalho dos perueiros. Eles rodam escondido.
Mas era muito bom eles passavam a toda hora e levava a metade do tempo...”
“as
vans eles tiraram. Tudo que é bom para pobre dura pouco...”
“eu
andava de van porque era mais barato mas eles estavam tirando a clientela
dos ônibus aí eles acabaram com as vans...”
Os demais
meios são: bicicleta, metrô, trem e barca (Rio de janeiro).
Destaque para cidade de Recife onde a bicicleta parece ser um importante
meio de transporte.
Embora
os ônibus sejam bastante utilizados, quando são pedidas
razões para escolha de um meio de transporte, fala-se principalmente
dos transportes alternativos e de andar a pé. Nota-se uma forte
tendência à substituição parcial ou completa,
quando possível, de transportes motorizados por andar a pé,
decorrência da falta de recursos ou desvio dos mesmos para outras
necessidades.
Razões
para o uso de transportes alternativos: O preço mais barato,
a possibilidade de negociações diversas e a rapidez são
os principais motivos citados para utilização do transporte
alternativo. Deve-se considerar que estes fatores, na maioria das vezes,
superam o receio de acidentes e a insegurança que os participantes
demonstram em relação às Kombis e Vans. Moto-taxi
só foi citado no Rio de Janeiro e em Recife servindo a moradores
das favelas, em São Paulo e Belo Horizonte não houve comentário
a este respeito.
“na kombi posso até pagar mais barato se eu falar
com o motorista. No ônibus se faltar algum dinheiro o trocador
não deixa por mais barato a passagem. O motorista da kombi
me deixa entrar se faltar 5 centavos...”
“no
ônibus se faltar algum dinheiro o trocador não deixa
por mais barato a passagem...”
“eu
prefiro ir de kombi porque o transporte alternativo ultimamente é
o transporte mais econômico...”
“as
vans cortavam caminho e eu ia mais rápido para casa. O motorista
perguntava onde as pessoas iam ficar e já passava nos lugares
certos...”
“eu
ando de kombi não é porque eu goste é porque
é mais barato 0,30 e também é mais rápido.
O ônibus demora muito e eu não quero chegar atrasada
então eu pego uma kombi embora seja mais perigoso...”
“eu
prefiro a kombi porque é mais rápido. O ônibus
você espera muito tempo no ponto...”
“com
os perueiros a gente chega mais rápido nos lugares...”
“nos
ônibus vai entrando gente até não poder mais.
Quando tinham as vans só cabia quem estava sentado e não
ficava um monte de gente imprensada...”
“a
kombi passou em um buraco e quase desmonta. Mas eu ando de kombi porque
é mais rápido...”
“a
kombi é mais rápida porém também é
imprudente no trânsito...”
“a
única opção é o transporte alternativo,
embora todos saibam aqui que não é seguro...”
“kombi,
porque é mais rápido e dependendo de alguns casos é
mais barato.
As kombis e vans tem limite de passageiros e depois que lota ela só
para onde o passageiro quer...”
“eu
adoro andar de moto táxi é muito rápido...”
Razões
para andar a pé: Entre os modos de locomoção andar
a pé parece ser o que mais motivos apresenta em relação
a falta de dinheiro. Longas caminhadas substituem trechos que seriam
percorridos por outro meio de transporte. Mas o medo de assaltos e a
insegurança estão presentes em vários relatos.
São comuns relatos de casos em que o empregador não fornece
o número suficiente de passagens para o deslocamento entre o
trabalho e a residência do trabalhador e também de casos
em que o participante doa seus vales transporte a parentes que necessitam
percorrer maiores distâncias. Nota-se também que algumas
pessoas utilizam ajudas de custo que recebem para transporte em outras
necessidades. Estes fatores reunidos resultam em pouca mobilidade, horas
de caminhada e perda de tempo dos participantes dos grupos em todas
as regiões metropolitanas pesquisadas.
“vou
a pé quando não tenho dinheiro da passagem. Eu saio
mais cedo e ando uma hora.
‘A
gente anda a pé porque não tem jeito, mas eu acho muito
perigoso...”
“minha
filha às vezes vai a pé para o colégio por falta
de dinheiro mas eu tenho medo porque é muito perigoso lá
perto de casa...”
“às
vezes ando a pé porque estou sem grana...”
“eu
já andei muito a pé procurando trabalho por não
ter dinheiro para passagem
se o dinheiro acabar tem que ir a pé...”
“eu
vou a pé demoro uns 45 minutos para o trabalho...”
“para
não gastar duas conduções eu vou a pé...”
“meu
marido tem muita dificuldade para ir ao trabalho pois ele anda meia
hora a pé até a estação do trem e depois
mais meia hora da estação até o serviço.”
“meu
filho ganhou um curso de computação em um sorteio na
escola. Mas como o local do curso é longe eu vou dar meu vale
transporte que recebo no trabalho para ele poder chegar no curso.
Eu vou andando para o trabalho demoro uns 35 minutos, de ônibus
seria mais rápido...”
“fica
muito caro o transporte pra minha família. Eu ando mais a pé
do que de ônibus.
‘Escolho
um ônibus que eu pego mais longe, ando um trecho a pé,
porque este ônibus é mais barato...”
“eu
gasto 4 passagens por dia mas minha patroa me dá duas e eu
vou andando o resto do caminho. Eu desço no centro e vou até
o trabalho a pé, são 40 minutos a pé. Eu preciso
trabalhar e tenho que aceitar. Às vezes eu pago do meu bolso
porque fico com muitas dores nas pernas...”
“às
vezes no trabalho me dão 5 reais para eu ir a algum lugar mas
eu fico com o dinheiro e vou a pé. Até por questão
de necessidade para comprar um pão comprar alguma coisa...”
“tenho
que vender os vales do ‘trampo’ se não eu passo
fome no final do mês...” “o meu marido faz isso...”
“o
que geralmente acontece é trocar os vales por alimento...”
“minha
vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho
para economizar...”
Razões
para andar de ônibus: Os participantes andam de ônibus principalmente
por conta da segurança. Contudo, os preços normalmente
são altos quando comparados ao transporte alternativo e existe
pouca oferta de ônibus com maior conforto. Nota-se que quando
o assunto é ônibus, a maioria dos participantes, mais reclama
do que vê razões para utilizar este meio de transporte.
Esta questão será descrita no item: O que há de
melhor e pior nos transportes urbanos.
No Rio de Janeiro os participantes criticaram um pouco menos este meio
de transporte.
“eu
penso que nos ônibus são motoristas profissionais mas
os perueiros eu não sei quem eles são...”
“ando
mais de ônibus do que de kombi porque é mais seguro...”
“eu
prefiro pegar o ônibus que é mais caro, mas é
mais seguro...”
“o
ônibus é seguro mas as kombis, o transporte alternativo,
não...”
“as
pessoas andam mais de ônibus que a pé por questão
da violência. Eu sou office boy e ando muito de ônibus...”
“eu
prefiro andar de ônibus porque os motoristas são mais
responsáveis ao dirigir...”
“O
que mais tem é acidente com van, por isso eu prefiro andar
de ônibus...”
“ônibus
e van, mas na vans eu tenho medo porque os motoristas andam adoidados...”
“quanto
mais longe é o bairro do centro pior é o transporte
coletivo. Os ônibus que andam perto do centro são melhores
e mais limpinhos, os nossos são sujos e lotados...”
Razões
para usar bicicleta: os participantes dos grupos do Recife foram os
que mais citaram o uso da bicicleta como meio de transporte. A bicicleta
é utilizada para vários fins por ser mais econômica,
mas quem as usa cita os riscos que envolvem este meio de transporte.
Em São Paulo surgiram alguns comentários sobre passeios
em grupo entre os mais jovens. As transcrições a seguir
foram obtidas quase que totalmente em Recife. Destaque para o comentário
sobre a contagem das bicicletas que passavam na Avenida Norte.
“eu
e meu patrão fizemos uma brincadeira na hora do almoço,
nós paramos por dez minutos na avenida norte e marcamos nesse
tempo quantas bicicletas passaram. Foram 109 bicicletas... Curitiba
tem menos bicicletas que Recife e tem uma ciclovia...”
“eu
trabalho em um colégio e tenho que estar lá as 6:00.
Eu prefiro ir de kombi que é mais rápido, mas como é
muito cedo custa muito a passar. Já o ônibus ninguém
sabe a hora que ele vai passar, então eu vou de bicicleta...”
“em
vez de gastar 1,30 eu vou de bicicleta e economizo esse dinheiro...”
“eu não tenho o dinheiro da passagem tenho que ir de
bicicleta mesmo...”
“andar
de bicicleta é mais barato, mas é perigoso...”
“vou
para o trabalho de bicicleta que fica mais barato...”
“quando
está chovendo meu marido larga a bicicleta e vai de kombi porque
se for esperar pelo ônibus chega atrasado...”
“quando
não vou a pé arrumo a bicicleta de um vizinho emprestado...”
“às
vezes ando de bicicleta na rodovia, mas é perigoso...”
“bicicleta,
todo dia vou para o trabalho de bicicleta...”
“meu
marido vai de bicicleta para o trabalho todos os dias...”
“tem
gente que trabalha com a bicicleta de carga vendendo água mineral
e ganhando seu lucrinho...”
“aqui
em SP tem muita subida e descida e cansa muito andar de bicicleta...”
“por
divertimento às vezes junta uma turma para ir de bicicleta
a alguma festa, às vezes até bem longe...”
Razões
para andar de metrô e trem: Apenas nas regiões metropolitanas
do Rio de Janeiro e São Paulo houve comentários sobre
as razões para utilização do metrô ou trem.
Estas recaem principalmente sobre a rapidez e o fato de não precisar
enfrentar engarrafamentos. Quanto ao metrô, particularmente, percebe-se
que a segurança e conforto do ar condicionado são os principais
atrativos, além da rapidez. No Rio de Janeiro destaca-se o fato
de que as pessoas de mais baixa renda usam o trem como meio de transporte,
mesmo este não compartilhando dos principais atributos do metrô,
como o ar-condicionado e a segurança. Outro fato que chama atenção
é a existência de um comércio intenso de ambulantes
que vendem produtos a preços baixos nos trens.
“no
metrô e no trem a gente não fica preso em engarrafamento
mas fica muito cheio. Uma lata de sardinha, mas é mais rápido
que o ônibus...”
“o
metrô é mais seguro que o trem...”
“o
pior de tudo é andar de ônibus. É melhor andar
de metrô porque é mais rápido e não passa
calor...”
“quando
eu estava trabalhando eu andava de metrô porque era mais rápido...”
“trem
tem muitos camelôs...”
“no
trem você compra de tudo...”
“o
trem é o meio de transporte mais louco que tem, aparece todo
tipo de gente, eu acho o maior barato. Outro dia tentaram até
me converter de religião...”
“o
trem é mais rápido...”
Com relação ao tempo gasto pelos participantes em
seus deslocamentos no dia-a-dia, este se mostrou bastante variado. Ocorreram
relatos de 15 minutos até 4 horas de deslocamento não
havendo preponderância em tempos elevados.
Motivos da não mobilidade:
Foi indagado
aos participantes se hoje eles se locomovem menos que antigamente. Por
que então isto estaria acontecendo? As respostas construídas
a partir desta pergunta apontam para os seguintes cenários:
Falta de
dinheiro decorrente do desemprego e alto preço das passagens
A violência
e a insegurança
O stress
e falta de paciência provocados por: poluição, demoras,
falta de conforto e engarrafamentos
Dificuldades
no transporte de crianças para lazer e diversão
“oferta
de transporte tem, o que falta mesmo é dinheiro e emprego...”
“eu
só vou a algum lugar se estiver com muita vontade mesmo, tem
muito assalto hoje em dia...”
“as
pessoas estão mais estressadas e sem paciência com nada.
Às vezes o ônibus demorou 5 minutos ela diz que demorou
20... As pessoas não saem de casa porque não têm
paciência de esperar o ônibus, estão estressadas...”
“imagina
você com duas crianças num domingo esperar por duas horas
por um ônibus no ponto, vai a um zoológico e depois mais
duas horas para voltar para casa. Eu não saio de casa...”
Motivos e características de deslocamentos para fora da região
metropolitana
Poucos
foram os relatos sobre deslocamentos mais distantes. Aparece de forma
marcante o fato de que está diminuindo a quantidade de viagens
e o principal motivo é a falta de dinheiro. O preço das
passagens e custos com alimentação são considerados
altos demais. Visitar parentes que vivem em outros estados é
o principal motivo para viagens. Entre os mais jovens, viajar a lazer
e diversão tem prioridade. O ônibus é praticamente
o único meio de transporte “acessível” economicamente
para percorrer longas distâncias. Uma alternativa citada pelos
participantes é a divisão de despesas, como combustível,
com alguém que possua um veículo ou outro meio de transporte
alugado. Porém, esta prática é mais comum em viagens
mais curtas e a lazer.
“eu
tenho vontade de conhecer a terra onde eu nasci, mas falta dinheiro...”
“é
tão cara a passagem para viajar que eu nunca viajei na minha
vida. É muito caro, eu não tenho condições...”
“eu
não tenho dinheiro para viajar...”
“não
vou a lugares mais distantes por falta de dinheiro, mas eu gostaria
de viajar...
“a
galera sempre se junta de 20 ou 30 amigos para viajar nesses ônibus
alugados...”
“eu
quase não saio do município...”
“não
viajo até porque tenho familiares e não posso viajar
e deixar eles para trás...”
“eu
tive que sair da Bahia e vir para aqui que tem trabalho porque eu
sou pedreiro...”
Influências do transporte na escolha da moradia
Alguns
participantes, principalmente os mais jovens, não sabem responder
se houve ou não influência do transporte na escolha de
suas moradias. No caso dos mais jovens, os pais já moravam no
local quando eles nasceram e por isso não têm essa informação.
Por outro lado, entre os adultos, a oferta de meios de transporte, influencia
na escolha da moradia. Normalmente, o fato da valorização
das moradias onde existe uma boa oferta de transportes coletivos, acaba
por afastar os mais pobres dos grandes pólos de trabalho, pois
o mercado imobiliário vê nesta necessidade de deslocamento
um bom argumento para aumentar o preço do aluguel dos imóveis.
Os relatos a seguir descrevem com detalhes as dificuldades dos participantes
e uma realidade do mercado relacionado à mobilidade dos menos
favorecidos.
“sempre
morei no mesmo apartamento com meus pais...”
“eu
moro lá desde que nasci e minha mãe não quer
sair de lá porque tem muitas coisas por perto...”
“sempre
morei no mesmo apartamento com meus pais...”
“minha
mãe só mora lá porque o transporte é fácil.
O transporte é fácil e tem padaria...essas coisas...”
“procurei
um barraco que passa um ônibus perto para eu poder ir para o
trabalho...”
“o
barracão pode ser do tamanho desta sala aqui mas se passa muito
ônibus o preço triplica eu pagava 120,00 de aluguel agora
estou pagando 200,00 porque é perto de avenida e passa muito
ônibus...”
“eu
mudei para um lugar menor e pago 250,00 porque é perto de uma
pracinha e passa mais ônibus...”
“a
própria imobiliária já diz assim: você
vai morar em um ótimo lugar que passa muito ônibus. Elas
dizem até o nome de umas 4 ou 5 linhas que passam no local...”
“as
imobiliárias se valem do argumento do transporte para inflacionar
o preço do aluguel...”
“
que você está falando é o mesmo que comprar uma
casa em um lugar melhor. Mas ninguém aqui tem condições
para isso, eu creio que é difícil pelo salário
que nós ganhamos. As casas onde o transporte é melhor
ficam mais próximas do centro.
“nós
mudamos para Maranquape por que tem mercado, padaria e feira tudo
bem perto para ir andando...”
A mobilidade no acesso ao trabalho e na procura de trabalho
Independente
de cidade, sexo ou faixa etária, as questões que envolvem
trabalho e mobilidade recaem sobre uma nova suposta “regra das
empresas”: Só pagar duas passagens por dia para cada trabalhador.
É possível notar uma certa dose de conformismo dos participantes.
As formas de lidar com esta dificuldade vão desde mentir sobre
as necessidades de transporte e local onde moram a andar trechos a pé
para não perder o emprego. Passando é claro por pagar
do próprio bolso a diferença da passagem, alternativa
que menos agrada pela falta de recursos financeiros. Alguns relataram
que deixam de procurar trabalho por não terem dinheiro para locomoção
e, por isso, muitas vezes são ajudados por amigos e parentes
nesta busca. Entre os que já estão empregados, existe
a insegurança de perder o emprego em caso de contenção
de despesas da empresa. As demais barreiras de acesso ao trabalho retratam
problemas relacionados aos meios de transporte como: demora, falta de
conforto e superlotação dos ônibus. Porém,
estas barreiras não parecem ser tão intransponíveis
como a exclusão do mercado de trabalho daqueles que precisam
utilizar mais de dois transportes diários para chegar ao local
de trabalho, as empresas parecem preferir empregar aqueles que moram
mais próximo.
“toda
firma só contrata você se você pegar apenas uma
condução. Parece que é lei não é?...”
“eu
preferi dizer na hora de conseguir um emprego na xxxxx que só
precisava de duas passagens para ir ao trabalho mesmo tendo que pagar
o resto ou ir andando. Porque assim eu poderia competir com os outros
candidatos...”
“as
empresas têm preferência pelas pessoas que pegam apenas
um ônibus para ir ao trabalho... a pessoa que precisa de dois
ou três vales transporte é difícil arrumar emprego...”
“Eu
tenho pessoas em casa que estão procurando emprego e firma
nenhuma esta dando mais do que dois vales por empregado... o patrão
só paga um transporte, o outro a pessoa que se vire...”
“têm
empresas que na hora de contenção de despesas eles mandam
embora os funcionários que dão mais despesa com transporte...”
“a
empresa não quer saber quem é o melhor e sim quem pega
menos vales transporte.
Eu recebo vale transporte mas tenho medo de ser mandado embora porque
eu pego três vales transporte e na hora da contenção
de despesas tem gente que faz o mesmo serviço que eu e pega
um só...”
“no
meu caso eu preciso morar a três km e meio do trabalho para
a empresa pagar a condução. Como eu moro a três
km vou a pé, já é normal. Quando eu estou inspirado
eu peço para o trocador e levo na conversa...”
“eu
recebo um condução e pago a outra do bolso...”
“é
uma condução só se quiser ter trabalho, se não
quiser... Pra mim é uma humilhação e tanto eu
tenho que gastar 50 ou 60 reais do meu bolso...”
“a
gente deixa de ir procurar por não ter dinheiro...”
“para
procurar emprego eu tenho que me vestir um pouco melhor isso dificulta
porque o motorista não acredita que você está
sem dinheiro no bolso para pagar a passagem e não deixa eu
sair sem pagar a passagem...”
“para
procurar emprego, quem me ajuda mesmo é minha irmã que
me dá alguns passes para eu me movimentar...”
“eu
deixo de ir a dois, três lugares procurar emprego porque o dinheiro
não dá...”
“eu
parei de procurar emprego porque eu não achava e a despesa
com transporte era demais, agora eu arrumei um bico e estou trabalhando...”
“eu
desisti de um emprego depois que fiz as contas e vi que pagando a
passagem a mais que a empresa não pagaria era melhor ficar
em casa. Tem que ganhar muito bem se não eu ia pagar para trabalhar...”
“minha
vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho
para economizar...”
“eu
vou a pé para gastar menos mas tenho medo de ser assaltado...”
“às
vezes eu peço a um colega emprestado o dinheiro do ônibus
para ir ao trabalho, mas não deixo de ir...”
“eu
vendi minha cesta básica para comprar vale transporte se não
eu não poderia ir para o trabalho...”
“eu
recebo vale transporte para ir trabalhar mas sempre acaba antes do
final do mês, aí em peço emprestado e depois eu
devolvo...”
“a
gente paga uma coisa, paga outra e no meado do mês acaba o dinheiro
para pagar o ônibus e eu vou a pé mesmo para o trabalho...”
Acesso a escolas e equipamentos de saúde
Em todas
as regiões metropolitanas houve relatos sobre a proximidade de
escolas e postos de saúde dos locais onde os participantes moram,
facilitando o deslocamento a pé. Por isso, é possível
perceber que, para eles, escolas e postos de saúde estão
dispostos de maneira uniforme nos municípios. Entretanto quando
existe a necessidade de mobilidade para se chegar a hospitais e cursos
mais específicos a falta de dinheiro se torna um problema. Na
hora de ir a um curso mais distante, ocorrem desistências e atrasos
e nos casos de emergência é difícil ter a quem recorrer.
As soluções nos casos de locomoção até
o local de ensino muitas vezes dependem do sacrifício de parentes
(exceção do Rio de janeiro onde existe esta gratuidade).
Em casos de emergência procuram-se amigos, rádios patrulhas,
serviços informais de resgate e até mesmo uma charrete
é improvisada. Alguns dos relatos abaixo demonstram até
que ponto as comunidades improvisam em momentos de emergência.
“em
99 eu tive que parar de estudar em um colégio melhor porque
eu não estava trabalhando e meu pai não tinha dinheiro
para pagar a passagem. Então eu voltei a estudar perto de casa...”
“eu
deixei de estudar porque não tinha condições
de pagar a passagem para ir até a escola”
“se
você quiser uma educação melhor tem que estudar
no centro da cidade. Se você trabalha, tudo bem, se você
não trabalha tem que tirar do bolso do pai...”
“da
minha casa para ir até o posto de saúde dá uma
meia hora a pé, mas eu prefiro do que pegar condução
devido a minha condição financeira...”
“lá
onde eu moro tem um rapaz que tem carro e ele cobra uma taxa por mês
das pessoas que precisam se locomover para um hospital. Ele dá
o número do celular dele para quem precisar. Ele leva ao hospital
a qualquer hora e fica com essa pessoa o tempo que for necessário.
Se for demorar ele volta pra casa e vai buscar na hora que a pessoa
precisar...”
“se
meu garoto adoecer eu tenho que pedir a qualquer um que estivar na
frente para nos levar ao hospital...”
“na
hora de uma emergência se eu tiver que ir mais rápido
para um hospital tenho que pedir ajuda porque nessa hora ninguém
pode esperar um ônibus...”
“onde
eu moro não entra ônibus e às vezes eu quero ir
para o médico e tenho que andar uns 30 minutos até a
avenida para pegar um ônibus...”
“depois
das 11 horas o moto táxi fica mais caro e se você quiser
ir ao posto de saúde tem que ir de carroça...”
“sou
prejudicada quando saio da aula as 10:40 e fico no ponto até
as 12:00 e o ônibus passa lotado não consigo nem passar
da escada é muito lotado...”
“já
tive que ir ao hospital ver minha filha e fiquei mais de uma hora
esperando no ponto do ônibus...”
“minha
sobrinha estuda, mas quando o ônibus atrasa ela chega atrasada
na escola...”
“O
tempo que eu levava para chegar ao colégio depois que eu saía
do trabalho era muito grande e eu tive que parar de estudar...”
“em
urgência eu quebro o galho com um amigo mesmo...”
“minha
filha quebrou o pé e eu não tinha dinheiro para pagar
um táxi. Nós ficamos 45 min esperando o ônibus
e ele não passou para eu levar minha filha no pronto socorro,
no final passou uma rádio patrulha e eu dei sinal. Eles levaram
a gente, isso já era meia noite.
A solução em uma emergência é o vizinho
ou a polícia...”
“o
posto de saúde é perto da minha casa, fica a 5 minutos.
Mas meu filho está fazendo um tratamento em um hospital mais
longe e eu tenho que sair de casa as 5:00 da manhã e fico esperando
o ônibus de 5:30 e desço na integração
de Rio Doce e passo mais 00:20 esperando para pegar outro ônibus
e descer lá às 7:00. A mesma coisa é na volta,
é difícil e complicado...”
A
questão do lazer
Entre todos
os assuntos debatidos o deslocamento para lazer e entretenimento é
a atividade que parece estar sendo mais prejudicada. Os motivos apontados
são: pequena oferta de ônibus nos finais de semana, longas
esperas no ponto e o custo de locomoção de uma família.
Os relatos de mães sobre dificuldades e desistências de
deslocamentos na companhia de filhos, para algum tipo de lazer, chamaram
a atenção dos que ouviam.
“com
as dificuldades no transporte às vezes a gente deixa de se
iludir com o lazer, principalmente as crianças...”
“é
muito difícil sair porque eu tenho 4 meninos e eu acho que
menino não deveria pagar passagem. Até os dez anos não
deveria pagar...”
“chega
o final de mês e meu filho é mestre em pedir para ir
na casa da avó dele, então são 4 ônibus,
mas no final do mês sem chances. Eu reviro a casa, acho um monte
de moedas, mas não dá o dinheiro das passagens. Meu
dinheiro acaba bem antes do final do mês...”
“desanima
sair de ônibus aos domingos com as crianças. Os ônibus
demoram muito...”
“tem
umas pessoas lá perto de casa que fazem um ou dois passeios
por mês. Eles juntam um tanto de crianças e eles só
cobram dos maiores e custa um real...”
“fica
muito caro o transporte nos finais de semana para sair com a família...”
“fica
difícil eu sair no final de semana. Fica caro pagar a passagem
da minha esposa e da minha filha...”
“para
visitar minha mãe fica caro. Então ou eu levo minha
esposa ou levo minha filha ou então vou sozinho mesmo...”
“eu
levei duas horas e meia para levar meu filho ao jardim zoológico
e mais duas horas e meia para voltar. Final de semana é horrível
sair com meu filho devido a demora no ponto para passar um ônibus...”
“eu
prefiro ir ao zoológico que é perto da minha casa porque
posso ir andando. Não vou ficar com meu filho duas horas dentro
de um ônibus ou esperando ele passar...”
Os demais
relatos sobre mobilidade e lazer envolvendo jovens e adultos apontam
para problemas parecidos como a falta de dinheiro, a demora dos ônibus
nos finais de semana e durante a madrugada onde em alguns lugares o
transporte é interrompido. Uma solução bastante
comum parece ser a reunião de grupos e a divisão dos custos
de transporte ou mesmo a carona. Sair a pé, reduzindo as alternativas
de lazer, ou não sair de casa também é usual entre
os participantes. Destaque para Belo Horizonte, onde por falta das Vans
e Kombis, alguns taxistas passam a fazer a chamada “lotada”
durante os finais de semana transportando grupos de jovens. Nota-se,
principalmente entre os adultos, um certo desânimo quanto a sair
de casa para entretenimento. Já os mais jovens parecem ter mais
disposição para enfrentar as dificuldades e riscos.
“perto
da minha casa não tenho opções de lazer tenho
que ir de carona com um amigo.
Junto uns amigos, alguém tem carro, a gente divide e vai a
algum lugar...”
“eu,
minha irmã e algumas pessoas que moram perto nos dividimos
e vamos de carona.
Vou passear mais quando algum amigo me leva de carona..”
“eu
vou sempre para o interior acampar. Vou de lotação.
Mas às vezes o que me impede de ir é a falta de grana...”
“tem
um ônibus perto da minha casa que me leva até a igreja
mas eu vou andando para economizar...”
“eu,
para sair a lazer, não saio, porque tenho que pagar a passagem
de duas pessoas...”
“sábado
e domingo eu não saio para lado nenhum porque não tenho
dinheiro...”
“quando
a gente está voltando de algum lugar à noite, durante
o final de semana, muitas vezes o táxi faz lotação
porque não tem ônibus e eles se aproveitam para levar
as pessoas do ponto...”
“tem
o especial que você paga 10 reais e vai para cachoeira e faz
outros passeios...”
“muitas
pessoas fazem excursões nesses ônibus alugados. Pregam
uma propaganda nos postes com o valor e o telefone para contato...”
“algumas
vezes nos reunimos em uma turma para alugar um ônibus, assim
fica mais barato...”
“cada
uma dava 5 reais e alugávamos uma Kombi...”
“às
vezes a gente junta uns amigos e divide um lotação para
ter um dia de lazer...”
“fica
sem lazer, fica em casa vendo televisão mesmo...”
“quando
eu ganhava vale transporte no trabalho eu gostava, mas só podia
usar para ir ao trabalho e eu gosto muito de ir na igreja e como o
dinheiro é pouco eu não podia ir...”
“fico
na casa de um colega, assisto um jogo na tv, tomando cerveja...”
“a
gente quer sair para se divertir um pouco, mas dia de domingo não
é muito bom não. Às vezes está cheio,
às vezes passa direto e às vezes demora...”
“o
carro é o meio mais próprio para se locomover para o
lazer e como eu não tenho, eu deixo de ir...”
“quando
tenho pouco dinheiro para sair, pagar passagem eu prefiro pegar este
dinheiro e ir no boteco da esquina e tomar tudo de cerveja...”
“nos
finais de semana só posso sair à noite se for de carro
com um amigo, porque não encontro ônibus para voltar
para casa. Pode acontecer de eu dormir na rua...”
“muitas
vezes eu deixo de sair por causa de transporte. Como que eu vou? Que
ônibus eu vou pegar? Como que eu vou voltar? O ônibus
para de rodar cedo...”
“o
ônibus acaba meia noite e meia, uma hora, no máximo,
e eu não tenho como voltar para casa depois disso. Tenho que
esperar clarear o dia para voltar para casa...”
“Como
não tenho como voltar para casa depois de certa hora, às
vezes durmo no ponto até começar a circular ônibus
novamente...”
“fim
de semana é horrível, os ônibus somem das cidade...”
Reflexos do gasto com o transporte no
orçamento familiar
O pequeno
orçamento familiar é o principal motivo para a baixa mobilidade
dos participantes. Por esse motivo, ocorrem reações intensas
quando se fala sobre os gastos com o transporte no dia-a-dia. Estes
gastos são considerados, na maioria das opiniões, como
de médio para alto. Os reflexos na alimentação
e no entretenimento são percebidos espontaneamente como os mais
prejudiciais. Os demais gastos mencionados como racionados por conta
do alto custo do transporte são: contas da casa, despesas com
saúde, vestuário, estudo e a locomoção para
procura de emprego.
“tem
dia que eu não tenho dinheiro para comprar pão e eu
paro e fico chorando que nem louca. É um absurdo você
não ter dinheiro para comprar pão, às vezes o
filho pede um coisa boba de um real, um chocolate e não dá
para dar para o filho...”
“às
vezes meus meninos deixam de jogar bola porque eu não tenho
dinheiro...”
“deixo
de sair de casa com freqüência devido ao preço do
transporte. Fico tanto tempo em casa que não sinto mais falta...”
“se
tomar muito chope tem que ir a pé para casa...o chopinho de
sexta feira fica para o mês que vem...”
“a
qualidade de vida e o lazer fica prejudicado...”
“minha
mãe é crente e às vezes deixa de ir na igreja
por falta de dinheiro...”
“eu
deixo de ter mais contato com minha filha devido ao dinheiro que eu
gasto de condução...”
“alimentação.
Na minha família poderíamos ter uma alimentação
melhor...”
“eu
parei minha fisioterapia por não ter condições
de pagar a passagem. Quando eu comecei era um preço, mas a
passagem aumentou e eu não tive mais condições
de ir...”
“o
dinheiro que você paga na passagem você poderia estar
pagando um plano de saúde...”
“pago
a conta de luz com esse dinheiro...”
“com
o dinheiro da passagem eu prefiro gastar o dinheiro em casa...”
“fazer
um curso. Eu gasto com transporte no mínimo 40 reais e com
estes 40 reais eu poderia fazer um curso...”
“eu
queria fazer um curso de hotelaria, mas se eu pagar o transporte eu
não vou comer nada...”
“eu
poderia estar fazendo meu curso de música...”
“Eu
quero comprar um tênis novo para meu filho e não posso
porque tenho que economizar aquele dinheiro para alguma coisa. E a
passagem do ônibus pesa muito. É lógico que pesa...”
“com
esse dinheiro eu poderia sair mais para procurar emprego...”
“são
ambas as coisas. Poder procurar emprego e ter mais lazer...”
Estratégias de mobilidade e formas
de gastar menos com transporte
Os risos
levemente constrangidos surgiram neste momento. A falta de dinheiro
e a necessidade levam alguns participantes a burlar o pagamento das
passagens. As estratégias para não pagar passagem são
bem parecidas em todos os grupos, contudo, notam-se algumas características
por região metropolitana, mas comuns a todos.
Belo Horizonte – Ao invés de pedidos de carona para o trocador
ou para o motorista existe a intimidação “passar
na marra”.
“eu
falei que estava caçando serviço e precisava trabalhar
e não ia sair do ônibus. Eles iam chamar a polícia,
mas os outros passageiros pagaram a passagem...”
“acho
que tem mais intimidação do que 0800, isso de pedir
não existe mais não. O trocador não vai arriscar
a vida dele para não deixar um ou dois não pagar a passagem...”
“como
a violência está muito grande as pessoas estão
com muito medo e o trocador não quer nem discutir, deixa passar...”
Rio de Janeiro – Se valer da gratuidade de estudante para não
pagar a passagem sem estar estudando. Usar carteirinha falsa ou uniforme.
“carteirinha
do colégio, camisa do colégio, mesmo em horários
em que não vou para o colégio. Jaleco do cefet...”
“sou
viciada em usar a camisa do colégio para ir a qualquer lugar...”
“Eu
já me inscrevi em cursos só para conseguir o jaleco
e a carteirinha e não pagar passagem...”
Recife – Negociar com o trocador e pagar mais barato não
girando a roleta.
“passar
imprensadinho e pagar uma passagem só...”
“pago
0,50 e passo por baixo. Mas isso é mais comum a noite...”
“se
alguém aqui disser que não passou por baixo da roleta
está mentindo...”
São Paulo – Pedir carona no ônibus e passar por baixo
da roleta sem pagar.
“Eu
não gosto de pedir para andar de graça no ônibus
mais se tiver de pedir eu vou pedir”
“quando
eu quero ir de ônibus para o trabalho e não tenho dinheiro
eu peço para o trocador me deixar passar sem pagar...”
“a
idéia do povão mesmo é não pagar nada.
Passar por baixo da roleta... Pular a catraca, falando com o trocador...”
As demais
formas de não pagar passagem ou gastar menos são mencionadas
no decorrer dos grupos:
“eu
já levei uma nota de 50 reais para o trocador não ter
troco e eu não pagar a passagem...”
“ando
a pé... as pessoas andam a pé para economizar o dinheiro
do ônibus...”
“como
a passagem de ônibus está muito cara, às vezes
eu pego um dinheirinho e ponho gasolina no carro da minha tia e peço
para ela me levar...”
“eu
pego o escolar porque faço o segundo grau. É um ônibus
financiado pela prefeitura, você paga um preço mais barato...”
“eu
passei por uma perícia para ter a carteirinha e não
pagar o transporte por problemas de saúde, mas até agora
não tive resposta...”
“carona
no carro dos namorados das minhas amigas...”
“o
passe fácil facilita para mim porque eu boto 26,00 de crédito
e são quarenta passagens...”
“meia
passagem para estudante é muito bom, mas primeiro tem que colocar
crédito que é o problema. Eu só ponho crédito
quando fico no pé do meu pai que não mora comigo não...”
“em
tempo de festa fica mais barato todo mundo se juntar e alugar um ônibus
ou outra condução...”
“em
vez de gastar 1,30 eu vou de bicicleta e economiza esse dinheiro...”
“a
kombi é mais barata e no final do mês você vai
economizar bastante pegando os transportes alternativos...”
“um
jeito massa é dizer que pegou o ônibus errado...”
“pego
o ônibus para Porto de Galinhas, mas compro a passagem para
mais perto que é mais barato, então eu finjo que estou
dormindo e passo direto...”
“se
fiquei desempregada e estou com o passe do desempregado eu empresto
o vale para minha mãe...”
“eu
pulava o muro na estação de trem...”
“não
sair de casa...”
“eu
era acompanhante do meu filho que era deficiente e não pagava...”
O vale
transporte também é mencionado diversas vezes como uma
forma de se gastar menos com transporte. Porém, devido ao ciclo
que se criou em torno desta forma de auxílio ao trabalhador,
este benefício se torna totalmente descaracterizado de seus objetivos.
O comércio paralelo do VT é comentado em diversas oportunidades
pelos participantes. Nota-se de um lado a necessidade de vendê-los
para, muitas vezes, comprar alimentos e de outro a oportunidade de gastar
um pouco menos com transporte comprando estes mesmos vales no mercado
paralelo. O VT é transformado em moeda aceita em diversos locais.
Comprar,
vender e trocar vales parece ser uma prática para contornar necessidades,
compondo orçamentos e sendo utilizado por quem não tem
um trabalho formal, logo, sem direito ao mesmo. Este ciclo gera uma
pequena economia para quem compra os vales e estica o salário
de quem os vende. Contudo, na prática, os resultados mostram
que o trabalhador sai perdendo e muitas vezes é obrigado a andar
a pé.
“quando
a gente está meio dura, minha mãe vai e vende alguns
passes mais barato para esses marreteiros da barraquinha para comprar
comida, geralmente, leite e pão, coisas do dia dia...”
“minha
vizinha vende os vales transporte e vai a pé para o trabalho
para economizar...”
“o
vale transporte prejudicou o trabalhador em vez de melhorar. Porque
a empresa não dá mais de um vale por dia e quem mora
longe sai prejudicado...”
“até
os bares, lojas e o mercado central recebem os vales transporte como
dinheiro...eu já troquei muitos vales, já comprei, já
vendi...”
“tenho
que vender os vales do trampo senão eu passo fome no final
do mês...o que geralmente acontece é trocar os vales
por alimento...”
“o
vale sai mais barato, eu compro o vale por um real...tem os cambistas
que vendem os vales nas paradas dos ônibus e fica mais barato...”
“é
comum comprar os vales para gastar menos com o transporte...eu às
vezes compro 10 vales e já livro um dinheirinho...”
“o
comércio dos vales acaba ajudando a quem precisa mais, a quem
tem mais necessidades...”
“no
final do mês sempre falta vale transporte e eu compro a um real...”
“andar
de kombi e comprar vale transporte porque comprando esse vale você
vai de ônibus se não quiser andar de kombi...”
“a
barraquinha vende o vale 15 centavos mais barato...com esse vale que
eu compro mais barato eu ando de ônibus que eu gosto mais e
não ando de kombi
“os
vales que eu recebo às vezes não dá porque às
vezes tenho necessidade de ir a um médico ou um sobrinho me
pede dinheiro para o transporte, então fica difícil...”
“eu
recebo vale transporte para ir trabalhar mas sempre acaba antes do
final do mês, aí em peço emprestado e depois eu
devolvo...”
“eu
vendi minha cesta básica para comprar vale transporte senão
eu não poderia ir para o trabalho...”
“com
o cartão dá para vender a passagem dentro do ônibus
mesmo, é só passar o cartão e deixar outras pessoas
passarem e pegar o dinheiro...”
A influência (ou não) da
telefonia na mobilidade dos mais pobres
Não
é comum entre os participantes dos grupos possuir aparelhos telefônicos,
móveis ou fixos. Normalmente eles se referem a outras pessoas
que têm aparelhos ou fazem suposições. De forma
geral, duas linhas de pensamentos predominaram:
De que
o deslocamento das pessoas diminui devido à comodidade de falar
com parentes, amigos ou mesmo por ter a possibilidade de comprar por
telefone;
“tem
uma amigo que eu sempre visitava, mas agora só vou de dois
em dois meses. Eu digo a ele ‘ tenha calma aí que eu
não tenho dinheiro para pagar a passagem’ e eu digo isso
por telefone...”
“em vez de ir a farmácia você pede por telefone...”
“com
certeza a necessidade de falar com alguém é resolvida
por telefone. Você não precisa se deslocar pra falar
com alguém. Se não tem celular fala do orelhão
mesmo...”
De que
a telefonia não influi no aumento ou diminuição
da mobilidade, e sim, facilita a precisão destes deslocamentos,
minimizando a perda de tempo;
“hoje
mesmo eu tive que buscar um exame, então eu liguei para saber
se estava tudo bem para não ter que voltar sem o exame...”
“eu
ligo antes para saber a situação para não ir
a algum lugar e perder a viagem...”
“ajuda
a economizar passagem porque você já vai na certa...”
Em menor
escala, aqueles que trabalham como autônomos relatam o aumento
de suas visitas a clientes e vêem o telefone como uma ferramenta
de trabalho. Entre os mais jovens, o uso do telefone facilita a marcação
de encontros, aumentando as saídas a lazer.
“A
questão do telefone acaba sendo uma faca de dois gumes você
pode acabar se deslocando mais ou menos. No meu caso os clientes me
ligam e eu me desloco mais por isso...”
“tem
duas faces por um lado você vai andar menos. Mas se você
olhar pela diversão você vai andar mais. Sempre tem alguém
que liga e fala vem para cá...”
O
que há de melhor e pior nos transportes urbanos
Em todos
os grupos o silêncio e a dúvida normalmente precedem as
opiniões sobre o que existe de melhor nos transportes urbanos.
Destaque para Belo Horizonte (adultos), onde o silêncio foi mais
longo e para São Paulo (jovens), onde a primeira opinião
foi um sonoro: “nada”. Com um certo estímulo do moderador
e deixando as insatisfações um pouco de lado, os participantes
disseram que o que há de melhor nos transportes urbanos é:
Ônibus
novos e confortáveis
O transporte alternativo
O metrô
Educação e amabilidade dos motoristas
Interação entre os passageiros durante o transporte
Variedades e opções de transporte
Deslocamentos rápidos e ágeis
Comprar e vender vales transporte no mercado paralelo
Ônibus destinados a estudantes e pessoas mais carentes
Por outro
lado, quando indagados sobre o que existe de pior nos transportes urbanos,
as opiniões surgem rapidamente.
Fatores
que envolvem os profissionais de transporte:
Estressados
pelas dificuldades da profissão / sem educação
Não param para idosos e estudantes / recebem ordens para isso
Desrespeitam os ciclistas
Correm demais / cometem imprudências
Passam por fora no ponto
Não possuem treinamento
Trafegam com a porta aberta
Fatores
causadores de stress e irritabilidade:
Excessiva
espera no ponto do ônibus
Ônibus cheios / lotados / não ter onde segurar
Transito intenso / engarrafamentos
Poluição do ar / poluição sonora
Grande quantidade de carros de passeio e poucos ônibus
Horários irregulares / transporte escasso no fim de semana de
madrugada
Fatores
de segurança:
Vandalismo
de passageiros
Violência / Assaltos / Trombadinhas
Utilização de transportes públicos para transporte
de drogas
Queima de ônibus
Disputa de rotas entre kombis e vans
Disputa de territórios entre facções criminosas
Fatores
de conforto:
Bancos
duros / quebrados
Trepidação do ônibus
Calor do motor
Falta de limpeza
Viajar em pé no ônibus
Pouca manutenção dos ônibus
Ônibus velhos / caindo aos pedaços
Ruas esburacadas / asfalto precário
Fatores
econômicos:
Preços
altos
Aumentos constantes nas tarifas
Sugestões dos participantes para
melhorar a mobilidade
As sugestões
mais diversas e inusitadas surgiram em todos os grupos. Abaixo estão
descritas as principais opiniões para, segundo os participantes,
aumentar a mobilidade das pessoas:
Aumentar
a concorrência
Aumentar o número de ônibus
Bafômetro para motoristas
Ciclovias
Colocar o ônibus minhocão
Colocar ônibus novos
Com uma mesma passagem você poder ir a vários lugares
Conscientização das pessoas para preservar os transportes
públicos
Consertar as vias públicas
Construir túneis
Controle de natalidade
Criança até 10 anos não deveria pagar passagem
Detetizar os ônibus
Diminuir o intervalo entre os ônibus
Educação para os motoristas
Mais conforto
Mais estações de metrô
Mais fiscalização para os transportes
Mais informações para não perder tempo no ponto
Mais microônibus, que são mais rápidos
Mais sistemas de integração
Mais trens
Melhorar o itinerário dos ônibus
Menos carros de passeio nas ruas
Menos faróis (sinais) para os ônibus, mais preferências
para os ônibus nas vias
O governo facilitar a compra de motos
Ônibus saindo dos bairros no final de semana para lazer com as
crianças. Sairia de manhã e voltaria à tarde
Passagens mais baratas
Pegar o diretor da MTU e colocar ele sem carro para pegar ônibus
Regulamentar os transportes alternativos
Saber dos horários dos ônibus
Segurança
SP está precisando de mais metrô, baldeação
e corredor para os ônibus
Tapar buracos
Tirar os ônibus e colocar mais lotação que é
mais rápido
Trocadores andarem com troco
Um corredor somente para os ônibus ia facilitar mais a vida do
povo
União das pessoas que têm carro com as que não têm.
Quem vai para o mesmo lugar
Via expressa sem sinal
Diferentes enfoques entre homens e mulheres
Foram percebidas
nas reuniões algumas particularidades pertinentes ao sexo feminino
em relação à mobilidade. Existe na figura da mulher
uma alta responsabilidade e conhecimento sobre os deslocamentos de toda
a família.
Neste ponto, a relação com as crianças é
intensa. Em vários depoimentos as mulheres retratam as dificuldades
que geram desistências no deslocamento na companhia de crianças.
Os principais motivos são: falta de recursos financeiros, escassez
de transportes no final de semana com longas esperas em pontos de ônibus,
lotação dos ônibus e a falta de cavalheirismo.
“levo meus filhos para escola e na volta para a casa...”
“o
posto de saúde é perto da minha casa, levo meu marido
a fisioterapia...”
“meu
marido ia para o trabalho de bicicleta mas o carro bateu nele e ele
voou uns dois metros...”
“com
as dificuldades no transporte as vezes agente deixa de se iludir com
o lazer, isso principalmente as crianças...”
“imagina
você com duas crianças num domingo esperar por duas horas
por um ônibus no ponto vai a um zoológico e depois mais
duas horas para voltar para casa. Eu não saio de casa...”
“as
pessoas que tem filhos tem que cortar o lazer se tiver que ir para
longe...”
“o
ônibus é muito demorado e vem muito cheio principalmente
para quem leva uma criança...”
“eu
com meu filho ninguém da lugar pra gente sentar. É muito
difícil sair sem ser por obrigação...”
“a
pessoa que tem muitos filhos não pode pagar as passagens...”
“minha
filha as vezes vai a pé para o colégio por falta de
dinheiro mas eu tenho medo porque é muito perigoso lá
perto de casa...”
“eu
para sair a lazer não saio porque tenho que pagar a passagem
de duas pessoas...”
“é
muito difícil sair porque eu tenho 4 meninos e eu acho que
menino não deveria pagar passagem até os dez anos não
deveria pagar...”
O assédio sexual também é lembrado em todos
os grupos como sendo de grande constrangimento para as mulheres. A superlotação
dos ônibus parece ser o momento propício para este tipo
ação. Comentários feitos nos grupos de Belo Horizonte,
Recife e São Paulo relatam que também os homens convivem
com o assédio de mulheres.
“quando
o ônibus esta cheio tem muito homem bobo que gosta de aproveitar
da situação e fica relando em você...”
“já
aconteceu comigo do ônibus lotado e um homem ficou relando em
mim eles fingem que estão segurando e ficam lá relando...”
“não
tem jeito os ônibus andam superlotados e agente sente que eles
se encostam de propósito...”
“tem
mulher que você passa perto dela e ela encosta a bunda para
traz eu conheço uma colega que ela encosta nos homens de propósito.
Ela diz que só gosta de pegar ônibus cheio porque se
eles só fazem sacanagem ela também faz...”
“a
mulher assedia também, eu já fui vítima mas dei
o telefone. Mas elas são mais reservadas é só
a questão de olhar...”
“Tem
mulher safada que encosta na gente também ...”
Perfil sócio-econômico dos
participantes
Sexo Participantes
Masculino 41
Feminino 47
Faixa Etária
15-19 23
20-29 30
30-39 16
40-49 10
50-59 4
Acima de 60 5
Grau de
instrução
Analfabeto 1
1º grau (incompleto) 42
1º grau (completo) 6
2º grau (incompleto) 28
2º grau (completo) 11
Ocupação
Estudantes 26
Assalariados 42
Autônomos 5
Aposentados 6
Desempregados 31
Dona de casa 7
Região
de moradia
Capital 58
Metropolitana 30